TESTEMUNHOS

 

“A Arte de Jorge Marques” por Ana Santa Villar

 

Ao contemplar a realidade, Jorge Marques tem a intuição de que o misticismo é a comunicação imediata com o todo, isto é, a visão absoluta da graça divina que permite penetrar nos segredos do real. A beleza e a perfeição dos meios de expressão pictórica das suas obras proveem do materialismo atomista. Nas suas paisagens, Jorge Marques, desmaterializa plasticamente a matéria, as formas orgânicas parecem estar num estado de levitação, e espiritualiza-as de modo a conseguir criar energia. É uma prova da sua visão mística de verdade e na sua crença na magia. As formas, o instantâneo de luz, o ar e até mesmo a distância, brotam das suas telas como visões contemplativas onde prevalece a técnica perfeita e requintada na execução das mesmas. Ao contemplar as telas de Jorge Marques, torna-se quase impossível não refletir sobre alguns princípios escritos por André Breton, em 1924, no seu primeiro manifesto ao surrealismo. O controlo da razão é feito por pensamentos suspensos, alheios a qualquer preocupação moral e a isenção da lógica é feita pela adoção de uma realidade superior “denominada de maravilhosa”. Nas suas obras usa uma linguagem onírica que transcende qualquer plano ou linha, uma proposta de bidimensionalidade anunciada pela luz cromática e traços sólidos. As telas de Jorge Marques alargam o espectro para além da imaginação voluntária numa espécie de desfocagem utópica das formas representadas, deixando ao observador a ambiguidade de que estas podem se tratar de meras reproduções de sonhos ou uma realidade enigmática. O que se torna claro é que as obras de Jorge Marques abrem os caminhos artísticos para a procura de novas possibilidades e de novos processos artísticos enquanto veículo de expressão de novos temas.

Ana Santa Villar

Historiadora e Museóloga

 

“A Pintura Cosmológica” por Sérgio Mourão

A pintura de Jorge Marques precisa de uma maior expansão junto do público. E precisa porque justifica essa difusão pelos valores e conteúdos que comunica.

Na verdade, a sua pintura contém valores de modernidade e futuristas que o artista representa com um saber cosmológico que é imanente à sua arte.
A sua presença no mundo das artes plásticas deve ser entendida como um compromisso de pintar mais e aparecer junto do público com uma constância que permita avaliar o que de notável a obra de Jorge Marques possui no seu conceptualismo, onde as luzes, as esferas e universos parecem oásis da imaginação poética.
As linhas de contorno, os cromatismos, as sugestões são suportes de uma invulgar força anímica que permite ao artista rebuscar o mistério do tempo e do espaço, com conteúdos onde paira, por vezes, o fascínio do génio humano, principalmente a síntese de um subconsciente que toca os limites de um neosurrealismo, exprimindo a vertente mágica do autor e universalizando as linhas e os planos que nos transcendem.
Eu sinto a paisagem lunar e o esplendor de outros sóis e galáxias na pintura cosmológica de Jorge Marques como se tratasse de um sonho ao qual só os visionários têm acesso. É este privilégio conceptual que confere à pintura deste artista a grandeza adequada de quem sabe criar, talhar e exibir uma técnica primorosa na execução da obra. E isto não sucede apenas nas linhas que traça, mas sobretudo nos diversos planos e vários segmentos que dão uma expressão de beleza e de equilíbrio aos seus trabalhos, como se de musicalidade se tratasse. Os traços circulares e as esferas, de uma visibilidade grandiosa, têm solidez plástica e são formalmente nucleares no desenvolvimento do seu trabalho plástico, formal e pictórico.
É flagrante, por exemplo, a maneira de resolver os motivos paisagísticos de uma natureza que não é familiar aos nossos olhos, e por isso mesmo, rodeada de poesia e mistério, como se os elementos fossem a cristalização da alma do pintor em busca de outros mundos. O espaço pictórico de Jorge Marques convida-nos a sonhar e a acreditar na vida, renovada de amplos horizontes, de entendimentos estilísticos, de sedutoras mineralizações, restos de lagos, como se quisesse assim anunciar as amplitudes e as perspetivas mais profundas que existem sempre adormecidas em cada ser.
As sugestões de bidimensionalidade completam a instauração da linguagem onírica do artista, refulgente de espiritualidade. Os elementos pictóricos não são utilizados como fins, mas regressam principalmente na facetação dos planos e das luminosidades, à sua condição de meios, exercendo forte influência, diria mesmo expressiva, na afirmação de uma natureza outra que documenta a dimensão interior do artista. E são esses meios criativos e estilísticos que motivam os encantos e as exaltações da sua obra, numa vaga de fundo do misterioso cosmos em que a natureza humana está também omnipresente.

Sérgio Mourão

Crítico de Arte, Jornalista e Escritor